12/2001 - Mário
Nagano, PC World
Para um sistema
operacional cujo custo de instalação é relativamente
baixo, que resiste melhor a panes e que funciona em várias
plataformas – seja ela em PC, Macintosh e até
servidores Sun e IBM –, o futuro do Linux parece
brilhante. Entretanto, para os usuários típicos de PCs
– especialmente aqueles que contemplam o mundo virtual
por meio das janelas do Windows –, o sistema de Torvalds
ainda parece meio distante da realidade.
Daí vem a clássica
pergunta: o Linux pode ser uma alternativa real ao Windows
nos computadores de mesa? Será que está tendo início
uma revolução ao lado do seu PC?
Desde o final da década
de 90, várias fabricantes já ofereciam PCs com Linux pré-instalado,
na intenção de baratear o custo final do equipamento. No
ano passado, a Dell anunciou nos EUA a venda de
computadores de mesa e notebooks com Linux em seu site, época
em que Michael Dell, presidente da companhia, declarou
durante a LinuxWorld que “a única coisa que crescia
mais rápido que o Linux era o Linux em (máquinas) Dell”.
Porém, a Dell
abandonou discretamente essa iniciativa em agosto deste
ano, alegando baixas vendas. Segundo representantes da
companhia, as vendas de desktops com Linux foram
superestimadas com base na idéia de que as empresas que
compravam servidores com Linux – que vendem bem por
sinal – também adotariam PCs de mesa com o mesmo
sistema operacional. De qualquer modo, a Dell ainda atende
a pedidos de desktops com Linux a partir de 50 unidades.
Entre os maiores
obstáculos para o uso do Linux em computadores de mesa,
destaca-se a falta de uma maior oferta de pacotes de
aplicativos de escritório, com processadores de texto e
planilhas eletrônicas. Outro empecilho normalmente
associado ao Linux é a incompatibilidade com hardware e a
dificuldade de instalação. Felizmente, houve grandes
avanços nessa frente, tanto no maior envolvimento dos
fabricantes com a comunidade Linux, na tentativa de
aumentar o leque de opções de hardware para o sistema,
quanto dos distribuidores do sistema que procuram
facilitar a instalação do sistema operacional para usuários
que não sejam especialistas. A mudança foi da água para
o vinho, como pudemos constatar em nossos testes de
instalação com três distribuições disponíveis no
Brasil.
A
Microsoft mexe seus pauzinhos
A Microsoft, a gigante do software, tem sido colocada de
maneira até folclórica, como um ferrenho opositor ao
Linux, mas que, contudo, não ignora o crescimento do
mercado do sistema de código aberto.
As
fontes truetype usadas nas janelas do Windows (à
esquerda) apresentam um resultado melhor que o apresentado
pelo KDE (à direita).
Além das afirmações
racionais e bastante sutis de Gates e das declarações
mais bombásticas e bastante enérgicas de Balmer que
procuram minimizar o impacto do software de código aberto
no mercado de TI, a Microsoft tomou várias ações para
manter sua liderança no mercado, algumas passivas, como
simplesmente ignorar o mercado, não oferecendo versões
de seus best sellers para Linux, outras mais ativas
e até louváveis, como melhorar a qualidade de seus
produtos.
Um dos casos mais
interessantes foi a grande, porém breve, investida da
Corel no mercado de Linux, uma iniciativa que poderia ter
consolidado a presença do Linux em computadores de mesa,
mas que acabou como um grande fiasco.
Ascensão
e queda do Corel Linux
Em março de 1999, quando o Linux começava a ganhar espaço
na mídia e as instalações do sistema em desktops eram
realmente complicadas, a Corel se propôs a colocar ordem
na casa, oferecendo uma distribuição tão simples de
instalar e usar quanto o próprio Windows.
Isso era apenas o
início de uma estratégia de maior envergadura, que incluía
planos de portar a maioria da linha de produtos da Corel
para o Linux, entre eles algumas pratas da casa como o
CorelDraw e o WordPerfect Office Suite. Pela primeira vez
no mercado, os usuários de Linux teriam à disposição
aplicativos de renome com o suporte de uma empresa de
peso.
Havia ainda a
intenção de fundir a Corel com a Borland/Inprise, de
modo que a nova companhia – que ainda se chamaria Corel
– teria condições de oferecer também ferramentas de
programação para Linux, impulsionando o desenvolvimento
de aplicações comerciais.
Se isso já não
fosse o suficiente para incomodar o pessoal da Microsoft,
a Corel incorporaria a tecnologia Wine em seu produto, o
que permitiria executar aplicações Windows dentro do
Linux sem o uso de emuladores.
Com essa estratégia,
a Corel tinha tudo – na teoria – para ser a número
dois no mercado de Linux, perdendo apenas para a Red Hat,
o que chamou a atenção da Microsoft, que durante muito
tempo foi capaz de manter o Corel WordPerfect Office Suite
num pequeno nicho de mercado além de invadir o terreno da
concorrente, disputando o segmento de gráficos vetoriais,
principalmente após a compra da Visio, que começou a
fazer parte dos produtos da linha Office.
Esse fato, somado
a outras trapalhadas administrativas, colocou a Corel numa
situação bastante vulnerável, abrindo abriu espaço
para uma ação da Microsoft – que muitos consideraram
um ato de piedade – quando Bill Gates tirou a Corel do
buraco com um investimento de US$ 135 milhões no caixa da
companhia.
Entretanto, esse
dinheiro teve um custo maior: além de dispensar seu
fundador, a Corel comprometeu-se a se livrar de todos os
seus negócios ligados ao Linux, além de parar de dar
suporte a sua nova linha Corel Office para esse sistema
operacional. Ainda mais: sob uma nova liderança, a Corel
também concordou a voltar a se concentrar nos negócios
relacionados a imagens e apoiar a Microsoft em sua estratégia
.NET.
No final das
contas, a fusão com a Borland não ocorreu, a Microsoft
continuou grande e poderosa como sempre e a estratégia do
Linux para desktops continua não muito clara.
Com essa novela, o
Linux perdeu um aliado de peso e um tempo precioso já que
com o lançamento do Windows XP, a Microsoft tem a grande
chance de acabar com as famosas críticas à estabilidade
de seus sistemas, o que eliminaria um dos motivos mais
citados para migrar para o Linux.
Esperanças
no futuro
Apesar desses altos e baixos, a comunidade Linux espera
que um cenário melhor para o próximo ano, época em que
lançamentos devem preencher as lacunas que faltam para
tornar o Linux uma alternativa realmente viável para o
Windows.
Em 2002, uma nova
versão do navegador Mozilla deve ser lançado em abril,
além de um clone do Outlook Express – o Evolution da
Ximian (www.ximian.com)
– já está em na versão RC1.
Espera-se também
que o StarOffice 6.0 da Sun seja laçado no terceiro
trimestre de 2002. Revisores que já tiveram contato com a
versão beta estão bastante entusiasmados com o pacote de
aplicativos para escritórios de código aberto.
O
Evolution promete trazer as facilidades do Outlook para o
Linux.
Outra ação que
pode movimentar o mundo Linux vem de Michael Robertson,
ex-CEO e fundador da MP3.com, que está investindo em uma
abordagem parecida com a do Corel Linux, isto é, executar
aplicações Windows diretamente no Linux. Sua nova
empresa, a Lindows.com (www.lindows.com)
pretende colocar no mercado até o final deste ano uma
versão preliminar de seu LindowOS, um sistema operacional
baseado no Linux capaz também de executar aplicações
Windows.
Segundo a Lindows,
essa bruxaria só é possível graças ao fato de o Linux
ser um sistema de código aberto, permitindo que o
LindowOS seja desenvolvido ao redor do seu núcleo,
acrescentando-se a capacidade de executar aplicações
Windows no seu modo nativo.
Até então, os
usuários de Linux dependem de emuladores para executar
aplicações Windows, porém a execução nem sempre é
perfeita nem o desempenho, satisfatório, o que não
ocorrerá no LindowOS, segundo a Lindows.com. Com esse lançamento
prévio, a Lindows.com espera receber críticas e sugestões
suficientes para ajudar a melhorar seu produto antes do
lançamento oficial. A previsão é que o sistema custe
menos de US$ 100 e cada cópia poderá ser legalmente
instalada em várias máquinas.
Essa abordagem
também tem seus críticos, já que muitos afirmam que a
melhor maneira de executar aplicações Windows é sobre o
Windows. Sob esse ponto de vista, para que se preocupar
com uma solução se o problema aparentemente não existe?
Outros afirmam que o usuário está interessado apenas em
realizar seu trabalho, ou seja, a aplicação é que
importa, não o sistema operacional em si.
Títulos
famosos como o SimCity 3000 já existem para o Linux.
Nesse sentido, se
existe a dúvida de mudar de sistema ou não, todo usuário
deveria perguntar para si mesmo se seu PC atende a todas
as suas necessidades. Se a resposta for sim, mudar de
plataforma faz pouco sentido num futuro próximo. De fato,
não vale a pena ficar mexendo em time que está ganhando.
Entretanto, se a resposta for negativa, talvez valha a
pena dar uma olhada no Linux.
No geral, podemos
afirmar que o Linux para desktops está vivendo a sua
adolescência, ainda dispondo de muito espaço e energia
para crescer e se tornar um produto realmente maduro para,
no final, encontrar o seu caminho na vida.
E como ocorre no
mundo real, envolver-se com adolescentes pode não ser uma
boa idéia para algumas pessoas com menos paciência e
pouca disposição.
Veja
também: LINUX - opções do
mercado brasileiro
Linux em português: www.caldera.com.br
| www.conectiva.com.br
| www.techlinux.com.br